O INSTRUTOR DE MERGULHO EFICAZ

Desde 1960, quando foi fundada a National Association Of Underwater Instructors, os padrões de ensino de mergulho passaram a ser voltados para a segurança do praticante e do meio ambiente. O principal elemento no sistema de ensino e aprendizagem da NAUI, referência da indústria mundial do mergulho, é o instrutor, e neste artigo procuramos descrever da melhor maneira, toda a sua importância no processo.

O instrutor de mergulho competente, obrigatoriamente deve dominar todas as áreas do conhecimento acadêmico voltado para o mergulho e possuir um nível superior de habilidades aquáticas e subaquáticas. E o principal diferencial na formação de profissionais de ensino da NAUI, é o foco no desenvolvimento das melhores técnicas e ferramentas para transmitir de forma eficiente esses conhecimentos e habilidades para as outras pessoas, especialmente para um grupo. Usando as ferramentas adquiridas em um ITC (Instructor Training Course NAUI) ele molda suas aulas aos alunos, de forma individualizada, considerando o histórico das experiências de aprendizado e, em especial, a motivação pessoal deles.

Não existe um método de ensino amplo e perfeito, igualmente eficaz para todos os alunos. O instrutor, entretanto, deve entender os fundamentos e conceitos básicos do ensino para adultos para desenvolver os modos mais eficientes de transmitir informações.

Aprender é geralmente definido como uma mudança de comportamento resultante de uma experiência. Este comportamento pode ser óbvio e físico, ou pode ser intelectual e baseado em atitudes, sendo difícil de perceber. 

Embora complexo, existem características amplamente aceitas do processo de aprendizagem que podem ser aplicadas de modo eficiente na instrução de mergulho. Apesar de todos nós termos aprendido essas características em nosso ITC, vale a pena fazermos uma revisão periódica e reconsiderá-las conforme progredirmos em nossas carreiras profissionais.

MOTIVAÇÃO

Motivação é provavelmente a força dominante que governa o progresso de um aluno e sua habilidade de aprender. Quedas de aprendizado são frequentemente associadas a quedas de motivação. A motivação pode ser positiva ou negativa, tangível ou intangível, sutil ou óbvia.

Motivação positiva é essencial para o verdadeiro aprendizado. Ela usa a promessa de recompensas e conquistas. Estas recompensas e conquistas podem ser pessoais (o aluno assistiu a reprises de Cousteau quando criança e sempre quis aprender a mergulhar), financeiras ou educacionais (o curso de mergulho pode contar créditos em alguma disciplina da faculdade), ou sociais (para conseguir a aprovação de outros e para estabelecer uma auto imagem favorável).

Motivações negativas são aquelas que o aluno pode perceber como ameaças que geram medo. Por exemplo: dizer a um aluno de mergulho que nunca, em hipótese alguma, prenda sua respiração, pois seus pulmões explodirão, ao invés de explicar o motivo real. Enquanto as motivações negativas tem seu uso em algumas situações específicas com alunos super confiantes ou impulsivos, elas não são tão eficientes quanto as motivações positivas.

Alunos adultos querem um retorno real para seus esforços. Eles devem acreditar que serão recompensados justamente pelo seu desempenho e isto deve estar constantemente em evidência. 

O instrutor deve apresentar as razões ou recompensas para um exercício dado, mesmo que óbvias, principalmente se a aplicação deste exercício só for acontecer muito adiante. 

De forma similar, o dispêndio de tempo com exercícios e aulas não diretamente ligados ao objetivo do curso, ou difíceis de executar no tempo dado, devem ser evitados. Se os estudantes não veem ou não conseguem perceber como um exercício tem aplicações práticas no mergulho autônomo (não perceber, por exemplo, qual a importância de desenvolver habilidades de mergulho livre) eles estarão menos motivados e consequentemente se esforçarão menos para aprender coisas que consideram inúteis.

OS NÍVEIS DE APRENDIZAGEM

O aprendizado pode ser atingido em um de vários níveis. O nível mais baixo, aprendizagem linear, é atingido quando o aluno tem apenas a capacidade de repetir ou apenas memorizou alguma coisa que foi ensinada, sem realmente entender ou estar apto a aplicar o que foi aprendido. Um exemplo: um aluno que pode recitar o Princípio de Arquimedes, mas não entende como ele se relaciona com o Colete Equilibrador, ou seja, o papagaio que apenas repete o que foi dito para ele por uma pessoa.

Um aluno que entende o que foi ensinado atinge o segundo nível de aprendizagem, a compreensão. Quando o aluno utiliza o que compreendeu para desenvolver uma habilidade aplicável, tal como usar o Colete para conseguir um equilíbrio neutro debaixo d’água, o nível da aplicabilidade foi então atingido. Finalmente, ao associar a compreensão e a aplicabilidade com as lições previamente aprendidas, o aluno atinge o último nível de aprendizagem, a correlação. 

Continuando com o exemplo, o mergulhador que tem entendimento prático e experiência em controle de flutuabilidade pode correlacionar a lição sobre compressão, previamente aprendida, e determinar os motivos pelos quais o Colete deve ser inflado ou esvaziado com as mudanças na profundidade.

Correlação é, portanto, o nível de aprendizado em que o aluno está apto a associar um elemento, que foi aprendido em uma parte de um curso ou uma experiência deste aprendizado, com outro elemento ou experiência. Este nível de aprendizagem mais alto deve ser o objetivo de toda e qualquer instrução.

PASSANDO A MENSAGEM

Inicialmente, toda aprendizagem vem da percepção que o cérebro tem através de um ou mais sentidos. Estudos revelam que, quanto mais sentidos estão envolvidos no processo de aprendizagem, maior será a incorporação do conteúdo. 

Por exemplo, a visão é responsável por 75% do aprendizado, enquanto apenas 13% é obtido pela audição. Estimulando mais de um sentido em uma aula, o aprendizado é aumentado. Ao utilizar uma tabela de mergulho, em uma apresentação oral ou um cilindro, quando discutindo as marcações no mesmo, visão e audição estarão estimulando uma a outra.

Existem auxiliares de instrução (training aids) como o toque e, até mesmo, o cheiro e o sabor, que estimulam ainda mais sentidos.

AS LEIS DO APRENDIZADO

Embora existam muitas escolas de pensamento sobre o processo de aprendizagem, existem várias leis aceitas de forma ampla pelos psicólogos. Nós aprendemos estas leis, quando fizemos nosso curso de instrutor, e elas nos deram ferramentas para percebermos o processo de aprendizagem relacionado ao ensino de mergulho:

  • A lei da primazia ensina que o que foi ensinado tem que estar correto da primeira vez. As primeiras experiências causam uma importante impressão e são usadas como base para tudo o que será ensinado a seguir. “Desensinar” é mais difícil do que ensinar. Não apenas será uma tarefa mais difícil para o instrutor, “desensinar” hábitos ruins e então reensinar os corretos, como o aluno perderá a confiança na instrução e sua motivação será impactada. Esta deve ser uma preocupação entre os novos instrutores e entre instrutores e instrutores assistentes, que trabalhem juntos sem estar familiarizados uns com os outros. Instrutores devem evitar contradições, revisando os planos de aula com toda a equipe e treinando os Standards com o material a ser utilizado em um briefing pré-aula. Tenha certeza de que os mesmos materiais, técnicas e conceitos são ensinados da mesma forma (standard) por todos os envolvidos.
  • A lei da prontidão simplesmente diz que os indivíduos aprendem melhor quando estão prontos para aprender, ou aprendem menos quando eles não vêem razão para aprender. O aluno com uma forte razão para aprender, com um objetivo claro, estará motivado para fazer grandes progressos. Existem muitos obstáculos ao aprendizado durante a instrução de mergulho: medo, ansiedade, frio, ou, simplesmente, problemas com o controle da flutuabilidade. Todos eles grandes fatores de distração no processo de aprendizagem. O aluno desconfortável estará mais envolvido em solucionar seus problemas imediatos do que em se concentrar na aula.
  • A lei do efeito afirma que os alunos aprendem melhor quando eles percebem o material como real e útil. Se o aluno entende a razão, pela qual deve dominar uma técnica e sua aplicação, ele vai querer aprender e aplicará esta técnica para aprendê-la.
  • A lei do exercício determina que aquelas coisas que são mais repetidas são também as mais lembradas e é a base da prática e repetição. A mente, apenas após uma exposição, raramente pode reter conceitos complexos e exercitá-los. Nós aprendemos pela aplicação daquilo que nos foi mostrado e explicado; a todo momento que praticamos nós chegamos mais perto de nosso objetivo e o aprendizado continua. Portanto o instrutor deve criar amplas oportunidades para o aluno praticar e repetir os exercícios. Os instrutores podem incluir habilidades aprendidas anteriormente em novos planos de aula, como em exercícios envolvendo máscara, regulador e desalagamento do snorkel, enquanto o aluno veste o equipamento scuba.
  • A lei da intensidade simplesmente afirma que um maior aprendizado é promovido quando o instrutor utiliza sua imaginação, tanto quanto possível, ao abordar a realidade durante as apresentações. Apresentações vívidas e excitantes são mais lembradas do que aquelas rotineiras e morosas. Em outras palavras, um aluno aprenderá mais com a realidade do que com um substituto qualquer.
  • A lei da aprendizagem recente. Coisas aprendidas mais recentemente são melhor lembradas. Reciprocamente, conhecimentos apresentados em momentos mais distantes, especialmente se não excitantes, serão menos lembrados. A lei da aprendizagem recente nos manda introduzir novos conhecimentos assim que eles se tornarem relevantes e úteis. 

Se ensinarmos sobre o nitrogênio, 3 ou 4 aulas antes de falarmos sobre doença descompressiva ou tabelas de mergulho, a maioria dos alunos já terá esquecido e precisará de uma revisão. A lei da aprendizagem recente deve impactar a ordem relativa das aulas e exercícios no currículo de seu curso.

AVALIAÇÃO E CRÍTICA

Uma habilidade importante do instrutor eficaz é a habilidade de analisar, avaliar e julgar performance. Uma vez que a aula seja apresentada é necessário determinar se a mensagem realmente foi entendida. Alguma forma de ter esse retorno (exames orais, avaliações práticas, testes escritos) é necessária, não apenas para registrar o progresso do aluno, mas é mais importante, ainda, para avaliar a efetividade do instrutor e dos métodos usados.

É fácil determinar a performance do instrutor em um grande grupo de alunos: se todos eles forem mal em um exame válido, certamente o instrutor falhou também. Entretanto, em um grupo pequeno isto nem sempre é claro. Fazer perguntas relevantes, concisas e justas durante um segmento de aprendizado é, normalmente, o método mais eficiente com um ou poucos alunos. Tente evitar perguntas com respostas “sim” ou “não”. Prefira perguntas que requerem um maior nível de entendimento para serem respondidas. Uma sessão de perguntas e respostas é uma parte importante do processo de aprendizagem.

A crítica do instrutor pode ser tão eficaz quanto o processo de aprendizagem. Ela deve dar ao aluno alguma coisa efetiva sobre o que construir e identificar pequenos deslizes onde mais estudo e trabalho são necessários. Uma crítica não deve ser uma etapa na nota deste aluno para ser eficaz, mas sim, uma etapa no processo de aprendizagem. A crítica não é necessariamente negativa em conteúdo, mas deve considerar o bom e o ruim juntos. Normalmente, ela é feita em particular, instrutor e aluno somente.

Críticas em grupo podem ser úteis e apropriadas, quando cobrem problemas comuns de alguns estudantes em um determinado exercício. Uma pré crítica de erros frequentes, mesmo depois do início de exercício, pode ser útil também.

O INSTRUTOR COMO UM MODELO

Independente da certificadora, o instrutor de mergulho é o único determinante do processo de aprendizagem. Além de montar os planos de aula e exercícios, de acordo com os standards de sua certificadora, o instrutor é responsável por ser um mergulhador que é um exemplo de proficiência e segurança, de acordo com o “manual”. Os alunos vão imitá-lo em todos os casos.

Os alunos também perderão a confiança nas aulas se o instrutor utilizar técnicas e habilidades diferentes das ensinadas. Este exemplo ilustra bem: “Eu tinha o hábito de vestir meu colete e equipamento por sobre minha cabeça, embora eu sempre ensinasse de acordo com os standards o método de equipagem em dupla, até que um de meus alunos tentou fazer o mesmo que eu, só que em um barco de mergulho. Infelizmente ele perdeu o equilíbrio e enquanto cambaleava com o cilindro sobre sua cabeça, derrubou ele sobre os pés descalços de outro mergulhador”.  

O instrutor tem que ter a consciência do que está sendo ensinado. Se realmente existir uma possibilidade diferente, o aluno deve descobrir isso, somente após dominar o básico, ou durante uma instrução mais avançada.

Ampliar o conteúdo de um curso se uma oportunidade aparecer e o tópico for relevante, tal como explicar aos alunos a flutuação positiva ao final de um mergulho com o cilindro mais leve ou vazio, ou a razão do regulador requerer mais esforço, quando olhando diretamente para cima. Fornecer informações adicionais mais cedo no currículo do curso, se o aluno estiver pronto para isso.

RESUMO

A vasta quantidade de material e a diversidade de alunos demandam que o instrutor tenha um entendimento prático dos conceitos de ensino e aprendizagem, intensamente desenvolvidos em um ITC, para, ao longo de sua carreira, através das experiências, continuamente desenvolver um currículo eficaz. 

Conhecer de forma precisa o modo como um aluno aprende, considerando os fatores individuais, permite ao instrutor desenvolver e modificar os caminhos para conduzir o curso da maneira mais eficiente possível.

Fontes: Materiais da National Association Of Underwaters Instructors. Sources Magazine – Instrutores Jay O’Donnell e Marcos Molina.

Quem é o autor deste artigo?

Alvanir Jornada é representante internacional de Treinamento da National Association Of Underwater Instructors e diretor presidente do escritório da NAUI Mercosul. Também é proprietário da Jornada Sub, em Jundiaí. Instrutor de mergulho recreativo, técnico, científico e militar. Como course diretor NAUI, já conduziu mais de 40 Cursos de Formação de Instrutores desde 2002. Ministrou diversos treinamentos em grupos especiais do Exército, Marinha, Força Aérea e Polícia Federal. Também tem importantes participações na área do mergulho científico, atuando em projetos nas áreas de Arqueologia Subaquática e de Biologia Marinha, inclusive fora do Brasil. NAUI CDT#19845 Leia todos os artigos deste colunista.